PARNASIANISMO (apresentação)
O Parnasianismo: a busca pela perfeição estética
O Parnasianismo foi um movimento literário que dominou a cena poética brasileira no final do século XIX e início do XX. Surgindo em um contexto de valorização do cientificismo e do positivismo, o movimento representou uma ruptura drástica com o estilo anterior, o Romantismo. Enquanto os românticos se deixavam levar pelo "eu", pelo sentimentalismo e por uma escrita muitas vezes descuidada formalmente, os parnasianos propuseram uma literatura baseada na objetividade e no distanciamento emocional.
A Arte pela Arte e o Rigor Formal
O pilar central dessa estética é o conceito de "Arte pela Arte". Para os poetas desse período, a poesia não deveria servir como ferramenta política, social ou religiosa; sua única e verdadeira finalidade era a busca pela beleza absoluta. O poema era visto como um objeto de luxo, autossuficiente e belo por sua própria constituição técnica.
Para atingir essa beleza, o rigor formal era indispensável. Os parnasianos tinham verdadeira obsessão pela métrica perfeita (como os versos alexandrinos, de 12 sílabas), pelo uso de rimas raras (palavras de classes gramaticais diferentes que rimam entre si) e por um vocabulário extremamente culto e preciso.
O Poeta como Artesão
Diferente dos poetas que esperavam por uma "inspiração divina", o autor parnasiano via-se como um artesão da palavra. Na famosa obra "Profissão de Fé", Olavo Bilac compara o ato de escrever ao trabalho de um ourives. Assim como o profissional que molda o ouro e as pedras preciosas com paciência e minúcia, o poeta deve lapidar cada verso até que ele atinja a perfeição plástica, eliminando qualquer traço de desordem ou subjetividade excessiva.
Temática: O Olhar para o Passado e o Descritivismo
No conteúdo de suas obras, o Parnasianismo buscou o Universalismo, afastando-se de temas locais ou cotidianos. Houve um forte resgate da Antiguidade Clássica, com constantes referências à mitologia grega, heróis e deuses, além da valorização de formas tradicionais como o soneto.
Outra marca registrada é o descritivismo. Os poemas frequentemente funcionam como "fotografias" de objetos inanimados, como vasos chineses, estátuas de mármore ou cenas da natureza, descritos com uma precisão quase científica. Esse foco no objeto externo servia para garantir que as angústias pessoais do autor não "contaminassem" a obra, mantendo a postura impassível e elegante que o movimento exigia. No Brasil, esse estilo foi imortalizado pela chamada "Tríade Parnasiana", composta por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia.
1. Olavo Bilac
Considerado o "Príncipe dos Poetas Brasileiros", é o autor mais popular do movimento. Sua poesia equilibra o rigor formal com uma leve sensualidade e temas patrióticos (como o "Hino à Bandeira"). Em sua obra-prima, Profissão de Fé, ele define o poeta como um "ourives" que lapida a palavra. É mestre no uso de versos alexandrinos e na clareza da linguagem, sendo um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
2. Alberto de Oliveira
É apontado como o poeta mais fiel e ortodoxo aos princípios do Parnasianismo. Sua escrita é marcada pelo descritivismo extremo, focando em objetos inanimados e detalhes da natureza (como no famoso poema "Vaso Chinês"). Sua poesia é considerada "fria" e plástica, priorizando a perfeição visual e a reconstrução de cenários clássicos, deixando qualquer sentimentalismo totalmente de lado.
3. Raimundo Correia
Sua obra destaca-se por uma profundidade mais filosófica e, por vezes, pessimista, aproximando-se do Simbolismo em alguns momentos. É conhecido por poemas que refletem sobre a desilusão humana e a passagem do tempo, como em "As Pombas". Ainda que seguisse rigidamente a métrica e a forma parnasiana, sua poesia carrega uma carga de reflexão existencial que o diferenciava do descritivismo puro de seus colegas.
Glossário Técnico do Parnasianismo
Arte pela Arte: Doutrina estética que defende que o valor de uma obra está na sua forma e beleza, e não em sua utilidade social, política ou moral.
Impassibilidade: Atitude de distanciamento emocional do poeta em relação ao tema. O autor busca não demonstrar sentimentos pessoais, mantendo-se "frio" e objetivo.
Metrificação: A técnica de contar as sílabas poéticas de um verso. No Parnasianismo, o rigor era total, sem variações que quebrassem o ritmo.
Objetivismo: Foco no mundo exterior e nos objetos reais, em oposição ao subjetivismo (foco nos sentimentos internos) do Romantismo.
Preciosismo Vocabular: Uso de palavras raras, eruditas e extremamente precisas. O objetivo é evitar termos comuns ou "vulgares".
Rimas Ricas: São rimas feitas entre palavras de classes gramaticais diferentes (por exemplo: um verbo rimando com um substantivo). São consideradas mais difíceis de construir do que as rimas "pobres" (substantivo com substantivo).
Soneto: Estrutura poética fixa composta por quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos). Era a forma favorita dos parnasianos pela sua organização lógica e fechada.
Tríade Parnasiana: Nome dado ao grupo dos três principais poetas do movimento no Brasil: Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira.
Versos Alexandrinos: Versos que possuem exatamente 12 sílabas poéticas. É um dos metros mais complexos e solenes da língua portuguesa.
POEMA: PROFISSÃO DE FÉ
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto-relevo
Faz de uma flor
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre: desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de outro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao keito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.
Porque o escrever – tanta perícia
Tanta requer,
Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer.
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por servir-te, Deusa serena,
Serena Forma!
Autoria: Olavo Bilac
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OUTROS POEMAS PARNASIANOS
Vila Rica
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro de sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.
Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião, que o tempo enegreceu…
A nebrina, roçando o chão, cicia, em prece,
Como uma procissão espectral que se move…
Dobra o sino… Soluça um verso de Dirceu…
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.
Texto: BILAC, Olavo. Vila Rica. In: Bueno, A. (Org.) Olavo Bilac: obra reunida. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997, p. 269.
As pombas Vai-se a primeira pomba despertada… Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais, apenas Raia sanguíneas e fresca a madrugada… E à tarde, quando a rígida nortada Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, Ruflando as asas, sacudindo as penas, Voltam todas em bando e em revoada… Também dos corações onde abotoam, Os sonhos, um por um céleres voam, Como voam as pombas dos pombais; No azul da adolescência as asas soltam Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam, E ele aos corações não voltam mais… CORREIA, Raimundo. As pombas. In: Benjamin Abdala Jr., (Org.) Antologia da poesia brasileira - realismo e Parnasianismo. São Paulo: Ática, 1985, p. 35.
Plena nudez Eu amo os gregos tipos de escultura: Pagãs nuas no mármore entalhadas; Não essas produções que a estufa escura Das modas cria, tortas e enfezadas. Quero em pleno esplendor, viço e frescura Os corpos nus; as linhas onduladas Livres: da carne exuberante e pura Todas as saliências destacadas… Não quero, a Vênus opulenta e bela De luxuriantes formas, entrevê-la Da transparente túnica através: Quero vê-la, sem pejo, sem receios, Os braços nus, o dorso nu, os seios Nus… toda nua, da cabeça aos pés!
LEIA, A SEGUIR, O POEMA DE FRANCISCA JÚLIA, PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 01 A 05.
MUSA IMPASSÍVEL
Musa! Um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Job, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dantes,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia creba,
Cante aos ouvido d’alma; a estrofe limpa e viva;
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o ápero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.
QUESTÃO 01: Pesquise, no dicionário, o significado das seguintes palavras que aparecem no poema.
a) cândido:
b) afeie:
c) sobrecenho:
d) austero:
e) idílico:
f) descante:
g) anguiforme:
h) Dante:
i) Homero:
j) hemistíquio:
k) creba:
l) calhau:
QUESTÃO 02: Ao longo do soneto, o sujeito poético tem como interlocutora a sua musa, isto é, a sua fonte de inspiração.
a) Quais as características da musa, presentes no primeiro quarteto?
b) Ainda de acordo com essa estrofe e com os dois versos iniciais do segundo quarteto, que comportamentos a musa deve rejeitar, para manter suas características?
c) Tais comportamentos lembram que estilo literário? Por quê?
QUESTÃO 03: a “Musa impassível” parnasiana é fundamentalmente antirromântica. Como o título do poema justifica essa afirmação?
QUESTÃO 04: Considerando o estudo sobre o Parnasianismo, relacione corretamente as características desse movimento literário aos versos retirados do poema “Musa impassível”.
(1) descritivismo impessoal e objetivismo. A visão da obra como resultado do trabalho que se coloca como um técnico do verso perfeito.
(2) Culto ao equilíbrio clássico e referências à mitologia grego-latina.
(3) Preciosismo linguístico e vocabular, busca da palavra rara e perfeita, dos elementos poéticos.
QUESTÃO 05: Considerando as características do Parnasianismo percebidas até agora, responda: a poesia parnasiana é resultado da inspiração ou do trabalho, da “transpiração”?
LEIA O POEMA, A SEGUIR, DE OLAVO BILAC, PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 06 E 07:
RIO ABAIXO
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Servimos. Curvas os bambuais o vento.
Vivo há pouco, de púrpura sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fimbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
QUESTÃO 06: Do ponto de vista formal, o poema, de Olavo Bilac, é um soneto porque caracteriza-se
(A) pela liberdade do fazer poético, com emprego de versos livres e vocabulário informal.
(B) pela linguagem subjetiva e sensual, típica entre os poetas ultrarromânticos.
(C) pela regularidade métrica e rímica, obedecendo aos critérios clássicos de beleza poética.
(D) pela mistura entre prosa e poesia, bem como utilização de linguagem coloquial.
(E) pela estética poética surrealista, típico modelo artístico inspirado pelos modernistas.
QUESTÃO 07: No poema, de Bilac, predomina
(A) a descrição.
(B) a narração.
(C) a dissertação.
(D) o estilo epistolar.
(E) a prosa romântica.
LEIA O POEMA, A SEGUIR, DE OLAVO BILAC, PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 08 A 11:
PROFISSÃO DE FÉ
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto-relevo
Faz de uma flor
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre: desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de outro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao keito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.
Porque o escrever – tanta perícia
Tanta requer,
Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer.
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por servir-te, Deusa serena,
Serena Forma!
QUESTÃO 08: Faça uso do dicionário e localize o significado das seguintes palavras selecionadas do poema lido.
Ourives:
Carrara:
Ônix:
Cinzel:
Cingir:
Rubim:
Perícia:
QUESTÃO 09: Uma das características do poema parnasiano é o uso da figura de linguagem hipérbato (inversão). Identifique a inversão nos trechos indicados e reescreva-os na ordem direta.
a) o terceiro e o quarto versos da primeira estrofe:
b) o primeiro e o segundo versos da segunda estrofe:
c) o terceiro e o quarto versos da segunda estrofe:
d) o primeiro e o segundo versos da penúltima estrofe:
QUESTÃO 10: Todo o poema está centrado numa comparação lógica entre o trabalho do ourives e o trabalho do poeta. Partindo dessa afirmativa, faça as correspondências de forma adequada.
QUESTÃO 11: Pode-se concluir que escrever poesia equivale a um trabalho
(A) artesanal.
(B) relaxante.
(C) prazeroso.
(D) artificial.
QUESTÃO 12: considerando o estudo sobre o Parnasianismo, assinale (V) para as afirmações VERDADEIRAS e (F) para as FALSAS.
GABARITO
1.
a) cândido: muito branco, brancura, puro, inocência.
b) afeie: enfear, tornar feio.
c) sobrecenho: semblante severo
d) austero: caráter severo.
e) idílico: amoroso
f) descante: canto
g) anguiforme: que tem forma de serpente
h) Dante: poeta italiano renascentista, autor da Divina Comédia
i) Homero: poeta grego, a quem são atribuídas as principais epopeias da Grécia antiga: Ilíada e Odisseia.
j) hemistíquio: a metade de um verso alexandrino (de doze sílabas métricas), e, por extensão, de qualquer verso.
k) creba: repetida
l) calhau: fragmento de rocha dura, pedra solta.
2.
a) Quais as características da musa, presentes no primeiro quarteto?
R: Cândido semblante, orgulhosa de si, olhar e semblante severo.
b) Ainda de acordo com essa estrofe e com os dois versos iniciais do segundo quarteto, que comportamentos a musa deve rejeitar, para manter suas características?
R: Ela deve rejeitar o choro (lágrimas), rejeitar o olhar e semblante de tristeza.
c) Tais comportamentos lembram que estilo literário? Por quê?
R: Lembram o romantismo, especificamente a segunda geração romântica (ultrarromantismo). São características da segunda geração romântica os excessos de subjetivismo e emocionalismo, fantasia, culto da morte e pessimismo.
3.
R: Impassível significa aquele que não se abala, aquele que é indiferente a dor ou a tristeza, isto é, características totalmente opostas ao estilo ultrarromântico.
4. Resposta: 1,3,2
5.
R: Resultado do trabalho, porque o poeta parnasiano preocupa-se mais com a estética do poema do que com o conteúdo, busca-se a formalidade, objetividade, preciosismo vocabular e rigor técnico, o idela da “arte pela arte”.
6. C
7. A
8.
Ourives: aquele que conserta ou vende objetos trabalhados em ouro e prata.
Carrara: cidade italiana famosa pelo tipo de mármore que lá se pode encontrar.
Ônix: pedra que simboliza a discórdia.
Cinzel: instrumento de aço, cortante numa das extremidades e usado especialmente por escultores.
Cingir: rodear, cercar, coroar.
Rubim: o mesmo que rubi.
Perícia: habilidade, destreza.
9.
a) o terceiro e o quarto versos da primeira estrofe:
Com que ele faz, em ouro, o alto relevo de uma flor.
b) o primeiro e o segundo versos da segunda estrofe:
Imito-o. E, pois, nem firo a pedra de Carrara.
c) o terceiro e o quarto versos da segunda estrofe:
Prefiro o alvo cristal, a pedra rara, o ônix.
d) o primeiro e o segundo versos da penúltima estrofe:
Porque o escrever requer tanta, tanta perícia
10. Resposta: 6,4,1,2,3,5.
11. A
12. Respostas: V,V,V, F,V,F

Um comentário:
Muito bom. Obrigado.
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