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sábado, 6 de dezembro de 2014

Leitura e Interpretação textual - Campo Geral - Guimarães Rosa

O texto conta sobre a infância de um menino da roça que, ao fazer novas descobertas, tem a possibilidade de ampliar o seu olhar. A personagem principal é Miguilim, um menino do interior de Minas Gerais, sem instrução escolar, mas cheio de imaginação, pois o seu cotidiano na fazenda é repleto de histórias fantásticas. Em um dado momento, Miguilim fica doente de desgosto, pois seu querido irmão Dito havia morrido. Um médico vai visitá-lo.
 

CAMPO GERAL

[...] Depois, de dia em dia, e Miguilim já conseguia de caminha direito, sem acabar cansando. Já sentia o tempero bom da comida; a Rosa fazia para ele todos os doces, de mamão, laranja-da-terra em calda de rapadura, geleia de mocotó. Miguilim, por si, passeava. Descia maneiro à estrada do Tipã, via o capim da flor. Um qualquer dia ia pedir para ir até na Vereda, visitar seo Aristeu. Zerró e Seu-Nome corriam adiante e voltavam. Brincando de rastrear o incerto. Um gavião gritava empinho, perto.
De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
- Deus te abençoe, pequenino. Como é teu nome?
- Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
- E seu irmão Dito é o dono daqui?
- Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.
O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:
- Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas, que é que há, Miguilim?
Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.
- Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
- É mãe e os meninos...
Estava Mãe, Tio Terêz, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: - “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”
Miguilim espremia os olhos. Drelina e Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.
- Este nosso rapazinho tem vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
- Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era modo mesmo, só que Miguilim carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompassso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, à Maitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: - “Miguilim, você é piticego...” Ele respondeu: - “Donazinha...”
Quando voltou, o doutro José Lourenço já tinha ido embora.
- Você está triste, Miguilim? – Mãe perguntou.
Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviraram sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.
- Pra onde ele foi?
- A foi para a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’imbora para a cidade. Disse que, você querendo, Miguilim, ele junto te leva... – O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola. Depois aprendia ofício. – “Você mesmo quer ir?”
Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até no fundo, se esfriava. Mas Mãe disse:
- Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram... [...]

ROSA, Guimarães. Manuelzão e Miguilim. In: OLIVEIRA, Tania Amaral et al. Língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: IBEP, 2012 (Coleção Tecendo Linguagens). 


RESPONDA

1. Qual é o personagem principal do texto?

2. O texto retrata a vida das pessoas que vivem na cidade ou na zona rural?

3. Releia o início do texto: “[...] Depois, de dia em dia, e Miguilim já conseguia de caminhar direito, sem acabar cansando. Já sentia o tempero bom da comida”. É possível deduzir a partir desse trecho que Miguilim, antes estava

(A) chateado.
(B) doente.
(C) alegre.
(D) mal-humorado.

4. Que tipo de comida Rosa fazia para Miguilim?

5. No primeiro parágrafo, no trecho “Um qualquer dia ia pedir para ir até na Vereda, visitar seo Aristeu”. Que palavra indica que este texto foi escrito há muito tempo?

6. Como é que Miguilim cumprimentou o doutor José Lourenço, quando o viu pela primeira vez?

7. Como podemos observar no texto, Miguilim tinha problemas de visão. Será que ele percebia esse problema? Justifique a sua resposta.

8. Que reação Miguilim apresentou, para que o doutor José Lourenço suspeitasse de seu problema de visão?

9. Que teste o doutor José Lourenço fez para comprovar o problema de visão de Miguilim?

10. Ao colocar os óculos, como Miguilim passou a enxergar?

11. Que palavra poderia substituir sem alteração de sentido a palavra “carecia” no seguinte trecho? “ Miguilim carecia de usar óculos”.

12. Qual foi a reação de Miguilim depois que ele usou, por alguns instantes, os óculos do doutor José Lourenço?

13. No trecho “Miguilim, você é piticego”. A expressão “piticego” é

(A) um elogio.
(B) um apelido carinhoso.
(C) uma ofensa.
(D) uma forma de expressar carinho.

14. Que proposta o doutor José Lourenço fez à mãe de Miguilim?

15. O que é possível deduzir no seguinte trecho? “Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar.”

16. As palavras “zelado” e “redizia” não podem ser encontradas no dicionário, mas no contexto da história narrada é possível encontrar um sentido para elas. Qual seria o sentido dessas duas palavras?

17. Miguilim, ao usar os óculos do doutor José Lourenço passou a enxergar as coisas com mais nitidez. Que outros sentidos podemos dar à ação de enxergar?

18. As lentes dos óculos ampliaram a visão da personagem. Em sua opinião, que “lentes” podem ampliar a visão de mundo do jovem atual?

19. Explique o sentido do ditado popular “O verdadeiro cego é aquele que não quer enxergar”.

20. Você gostou da história sobre Miguilim? Justifique sua resposta.

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