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domingo, 26 de julho de 2015

LEITURA E INTERPRETAÇÃO TEXTUAL - UM APÓLOGO - MACHADO DE ASSIS



Um Apólogo
Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


COMPREENDENDO O TEXTO

1. Muitas vezes, um escritor reflete em sua obra aspectos da realidade da época em que vivia. Porém, quando uma obra apresenta aspectos que podem ser aplicados a qualquer época e a todas as pessoas, dizemos que o texto é atemporal, ou universal. Em sua opinião, os comportamentos mostrados no texto "Um apólogo" são atemporais? Por quê?

2. Quando o alfinete aparece no apólogo, é dito que ele é "de cabeça grande e não menor experiência". Com que sentido foi feita essa relação? Explique.

3. Em sua opinião, por que a moral da história acabou sendo dada pelo professor?

4. Releia o trecho a seguir:
 - Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

A) A quem pertence essa fala no texto?

B) Por meio desse trecho, que características psicológicas desse personagem podem ser percebidas?

C) Ao longo do texto, que outras características psicológicas desse personagem podem ser percebidas?

5. O tempo e o espaço são elementos de uma narrativa, pois auxiliam no desenvolvimento da história narada.

A) As ações que envolvem a linha e a agulha ocorreram em que lugar?

B) Em quanto tempo transcorreram os fatos narrados envolvendo a agulha e a linha?

C) Em qual tempo verbal o apólogo foi narrado?

6. Que ensinamento o apólogo apresenta?

7. Textos como esse têm como objetivo provocar uma mudança decomportamento nos leitores. Que atitude o texto lido busca provocar no leitor?

8. O narrador participa da história ou é apenas um observador? Explique.

9. No final do texto, o narrador reproduz o comentário que ouviu a respeito dessa história. Explique quem faz esse comentário e o que você entendeu dele?

10. Em dois momentos do apólogo, o narrador dialoga diretamente com o leitor. Em quais momentos isso ocorre?

11. O apólogo lido apresenta um confronto entre dois personagens. 

A) Em sua primeira fala, o tom usado pela agulha expressa qual intenção dela?

B) Pela resposta dada a linha, percebe-se que ela teve a mesma intenção da agulha ou não? Explique.

12. No início, a agulha compete com a linha argumentando que ela, a agulha, era superior, pois sempre ia à frente, abrindo caminho para a linha. Isso demostra que a agulha era orgulhosa. No entanto, no decorrer do texto, a linha demonstrou ser competitiva.

A) Em sua opinião, na vida real, que problemas uma pessoa muito competitiva pode ter?

B) Para você, em que situações ser competitivo pode ser algo positivo?

13. Leia os trechos a seguir:

- Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada [...]
Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

Com que sentido as expressões destacadas foram empregadas nesses trechos?

14. No texto foram empregadas algumas palavras que caíram em desuso em nosso vocabulário. Reescreve essas palavras.

15. Consulte um dicionário e procure o significado das palavras que você colocou como resposta na questão 14.

 FONTE:
ASSIS, Machado. Um apólogo. In: ALVES, Rosemeire; BRUGNEROTTO, Tatiane. Vontade de saber português. São Paulo: FTD, 2012.


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